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quinta-feira, 31 de outubro de 2013

FUTURÂMICA



Mesmo que um dia se conseguir fazer rosas de todas as cores,
sempre há de ficar no mundo a imutável beleza das panteras,
a incorruptível limpidez das lagrimas...

Mario Quintana ,
in Porta Giratória

O POBRE POEMA




Eu escrevi um poema horrível!
É claro que ele queria dizer alguma coisa...
Mas o quê?
Estaria engasgado?
Nas suas meias palavras havia no entanto uma ternura
mansa como a que se vê nos olhos de uma criança
doente, uma precoce, incompreensível gravidade
de quem, sem ler os jornais,
soubesse dos sequestros
dos que morrem sem culpa
dos que se desviam porque todos os caminhos estão
tomados...
Poema, menininho condenado,
bem se via que ele não era deste mundo
nem para este mundo...
Tomado, então, de um ódio insensato,
esse ódio que enlouquece os homens ante a insuportável
verdade, dilacerei-o em mil pedaços.
E respirei...
Também! quem mandou ter ele nascido no mundo errado?

Mario Quintana
- A Vaca e o Hipogrifo

domingo, 27 de outubro de 2013

Uns e Outros


Esses cachorros da rua, que nós aqui chamamos
guaipecas e cujo pedigree é do mais puro pot-pourri,
capaz de enlouquecer qualquer genealogista canino - 
você já repararam como são alegres, espertos, afetuosos?
Só os de pura raça são graves e creio que tristes como 
os faraós egípcios, os chefes incaicos, os príncipes astecas.

Mario Quintana,
in A vaca e o hipogrifo

 




Madrigal



Tu és a matéria plástica de meus versos, querida...
Porque, afinal,
Eu nunca fiz meus versos propriamente a ti:
Eu sempre fiz versos de ti!

Mario Quintana;
in Velório sem defunto, 1990


sábado, 26 de outubro de 2013

SURPRESAS



Sabes? Os cabelos da morte são entrelaçados de flores.
Não de flores mortas como essas inertes sempre-vivas,
Mas inquietas e misteriosas como os não desfolhados
malmequeres
Ou bravias como as pequenas rosas silvestres.

As mãos da morte, as suas mãos não têm anéis,
Sua virgem nudez não comporta o peso de uma jóia,
Os seus olhos não são, não são uns covis de treva,
Mas cheios de luz como os olhos do primeiro amor.

Porque a morte não faz esquecer, mas faz tudo lembrar,
Porque a morte não é, não é um sono eterno:
Tu vais adormecer como num berço, pouco a pouco,
E acordarás de súbito num vasto leito de noivado!


Mário Quintana
In: Esconderijos do Tempo

sexta-feira, 25 de outubro de 2013

Canção da Noite Alta



Menina está dormindo.
Coração bolindo.
Mãe, por que não fechaste a janela?
É tarde, agora:
Pé ante pé
Vem vindo
O Cavaleiro do Luar.
Na sua fronte de prata
A lua se retrata.
No seu peito
Bate um coração perfeito.
No seu coração
Dorme um leão,
Dorme um leão com uma rosa na boca.
E o príncipe ergue o punhal no ar:
. . . um grito
aflito. . .
Louca!

Mário Quintana
In: Canções

Segunda canção de muito longe



Havia um corredor que fazia cotovelo:
Um mistério encanando com outro mistério, no escuro...

Mas vamos fechar os olhos
E pensar numa outra cousa...

Vamos ouvir o ruído cantado, o ruído arrastado das correntes no algibe,
Puxando a água fresca e profunda.
Havia no arco do algibe trepadeiras trêmulas.
Nós nos debruçávamos à borda, gritando os nomes uns dos outros,
E lá dentro as palavras ressoavam fortes, cavernosas como vozes de leões.
Nós éramos quatro, uma prima, dois negrinhos e eu.
Havia os azulejos reluzentes, o muro do quintal, que limitava o mundo,
Uma paineira enorme e, sempre e cada vez mais, os grilos e as estrelas...
Havia todos os ruídos, todas as vozes daqueles tempos...
As lindas e absurdas cantigas, tia Tula ralhando os cachorrros,
O chiar das chaleiras...
Onde andará agora o pince-nez da tia Tula
Que ela não achava nunca?
A pobre não chegou a terminar a Toutinegra do Moinho,
Que saía em folhetim no Correio do Povo!...
A última vez que a vi, ela ia dobrando aquele corredor escuro.
Ia encolhida, pequenininha, humilde. Seus passos não faziam ruído.
E ela nem se voltou para trás!


Mario Quintana,
in Canções

quinta-feira, 24 de outubro de 2013

CANÇÃO DE MUITO LONGE



Foi-por-cau-sa-do-bar-quei-ro

E todas as noites, sob o velho céu arqueado
de bugigangas,

A mesma canção jubilosa se erguia.

Acanoooavirou
Quemfez elavirar? Uma voz perguntava.

Os luares extáticos...

A noite parada...


Foi por causa do barqueiro,
 
Que não soube remar.


Mario Quintana,
in Canções

''UMA CANÇÃO''



Minha terra não tem palmeiras...
E em vez de um mero sabiá,
Cantam aves invisíveis
Nas palmeiras que não há.

Minha terra tem relógios,
Cada qual com sua hora
Nos mais diversos instantes...
Mas onde o instante de agora?

Mas onde a palavra "onde"?
Terra ingrata, ingrato filho,
Sob os céus da minha terra
Eu canto a Canção do Exílio!


Mario Quintana
de Apontamentos de História Sobrenatural

quarta-feira, 23 de outubro de 2013

Encontro mágico



Eis que encontro na rua uma das moças mais lindas do mundo.
Vestida simplesmente, parecia no entanto uma princesa
Um meigo olhar, um sorriso que parecia uma aurora dentro de nós.
Não pude, não pude mais e lhe indaguei de súbito:
"Como é teu nome, minha querida?"
E ela respondeu-me simplesmente: AUSÊNCIA.
 
Mario Quintana,in
Velório sem defunto
 

terça-feira, 22 de outubro de 2013

"Canção da chuva e do vento"



Dança, Velha. Dança. Dança.
Põe um pé. Põe outro pé.
Mais depressa. Mais depressa
Põe mais pé. Pé. Pé.

Upa. Salta. Pula. Agacha.
Mete pé e mete assento.
Que o velho agita, frenético,
O seu chicote de vento.

Mansinho agora... mansinho
Até de todo caíres...
Que o Velho dorme de velho
Sob os arcos do Arco-Íris.


Mario Quintana , 
in Canções, 1946

segunda-feira, 21 de outubro de 2013

Romance



Quando, ainda menino, briguei ainda uma vez
para sempre com Adalgisa
Não fui olhar a saída da missa de domingo,
Como era costume naqueles ingênuos e queridos tempos,
E fui passear pela rua da sua casa
Ver a placa da esquina
Despertar o costumeiro revôo dos pombos na calçada
Não esqueci nada, nada daquilo...
Tudo tão cheio da ausência dela!

Mario Quintana;
in Velório sem defunto













domingo, 20 de outubro de 2013

POEMA TRANSITÓRIO



Eu que nasci na Era da Fumaça: - trenzinho
vagaroso com vagarosas
paradas
em cada estaçãozinha pobre
para comprar
pastéis
pés-de-moleque
sonhos
principalmente sonhos!
porque as moças da cidade vinham olhar o trem passar:
elas suspirando maravilhosas viagens
e a gente com um desejo súbito de ali ficar morando
sempre... Nisto,
o apito da locomotiva
e o trem se afastando
e o trem arquejando
é preciso partir
é preciso chegar
é preciso partir é preciso chegar... Ah, como esta vida é
[urgente!
no entanto
eu gostava era mesmo de partir...
e - até hoje - quando acaso embarco
para alguma parte
acomodo-me no meu lugar
fecho os olhos e sonho:
viajar, viajar
mas para parte nenhuma...
viajar indefinidamente...
como uma nave espacial perdida entre as estrelas.

Mario Quintana
In Baú de Espantos

sábado, 19 de outubro de 2013

RECORDO AINDA...




Recordo ainda ... E nada mais me importa...
Aqueles dias de uma luz tão mansa
Que me deixavam, sempre, de lembrança,
Algum brinquedo novo à minha porta...
Mas veio um vento de Desesperança
Soprando cinzas pela noite mortal!
E eu pendurei na galharia torta
Todos os meus brinquedos de criança... 
Estrada fora após segui... Mas, ai,
Embora idade e senso eu aparente,
Não vos iluda o velho que aqui vai: 
Eu quero os meus brinquedos novamente!
Sou um pobre menino... acreditai...
Que envelheceu, um dia, de repente!...


Mario Quintana
de Nariz de Vidro


AS RUAZINHAS



Eu amo de um amor que jamais poderei expressar
Essas pequenas ruas com suas casas de porta e janela,
Ruas tão nuas
Que os lampiões fazem às vezes de álamos,
Com toda a vibratilidade dos álamos,
petrificada nos troncos imóveis de ferro,
Ruas que me parecem tão distantes
E tão perto
A um tempo
Que eu as olho numa triste saudade de quem
já tivesse morrido,
Ruas como as que a gente vê em certos quadros,
Em certos filmes:
Meu Deus, aquele reflexo, à noite, nas pedras
irregulares do calçamento
Ou a ensolarada miséria daquele muro a
perder o reboco...
Para que eu vos ame tanto
Assim,
Minhas ruazinhas de encanto e desencanto,
É que expressais alguma coisa minha...
Só para mim!

Mario Quintana,
in Preparativos de Viagem

sexta-feira, 18 de outubro de 2013

POESIA




Impossível qualquer explicação:
ou a gente aceita à primeira vista, 
ou não aceitará nunca:
a poesia é o mistério evidente. 
Ela é óbvia, mas não é chata como um axioma. 
E, embora evidente, traz sempre um imprevisível, 
uma surpresa, um descobrimento.

Mario Quintana,
in Poesia Completa

PÉ ANTE PÉ



Veem todos caminhando na ponta dos pés.
Alguém morreu? Não. É mais fundo o mistério...
Chegam todos, agora, na ponta dos pés,
Para vê-lo dormir o primeiro soninho!

Mario Quintana
In Baú de Espantos


VERDE




Cactos, as tropicais colorações violentas
E o veludoso tom que nas grutas sombrias
O chão verdoengo alfombra... As verdes pedrarias,
Verdes químicos, mar revolto, as reverberações
Das caudas das sereias... e o verde heróico das
[tormentas!
Verde o sonho, o propício repouso...
Em cujo seio entanto enroscam-se as paixões...
Mórgia da cor, verde violento e venenoso.
Verde - que sensações
Estranhas: terras! várzeas! a luz! cantigas! alaridos!
E esses homens de mãos cruzadas, estendidos
No verde das sutis, lentas putrefações...

Mario Quintana
In Baú de Espantos

"A Gioconda"




Descobri o famoso mistério
Do teu sorriso, Gioconda...
Pensando bem,
É o mesmo sorriso que tem
Essa gente sempre de boca fechada
De tanta gente no mundo...
O que há nisso de profundo? É apenas
Porque já perderam todos os dentes!


Mario Quintana;
in Velório sem defunto, 1990

XV. DO MAU ESTILO



Todo o bem, todo o mal que eles te dizem, nada
Seria, se soubessem expressá-lo...
O ataque de uma borboleta agrada
Mais que todos os beijos de um cavalo.

Mario Quintana;
in Espelho Mágico

quinta-feira, 17 de outubro de 2013

OPERAÇÃO ALMA



Há os que fazem materializações...
Grande coisa! Eu faço desmaterializações,
Subjetivações de objetos.
Inclusive sorrisos,
Como aquele que tu me deste um dia com o mais puro azul de teus olhos
E nunca mais nos vimos. ( Na verdade, a gente nunca mais se vê...) No entanto,
Há muito que ele faz parte de certos estados do céu,
De certos instantes de serena, inexplicável alegria,
Assim como um vôo sozinho põe um gesto de adeus na paisagem,
Como uma curva de caminho,
Anônima,
Torna-se às vezes a maior recordação de toda uma volta ao mundo!

Mario Quintana
- In Melhores Poemas

quarta-feira, 16 de outubro de 2013

XVI


(a Nilo Milano)

Triste encanto das tardes borralheiras
Que enchem de cinza o coração da gente!
A tarde lembra um passarinho doente
A pipilar os pingos das goteiras...

A tarde pobre fica, horas inteiras,
A espiar pelas vidraças, tristemente,
O crepitar das brasas na lareira...
Meu Deus... o frio que a pobrezinha sente!

Por que é que esses Arcanjos neurastênicos
Só usam névoa em seus efeitos cênicos?
Nenhum azul para te distraíres...

Ah, se eu pudesse, tardezinha pobre,
Eu pintava trezentos arco-íris
Nesse tristonho céu que nos encobre!...


Mário Quintana
in Rua dos Cataventos

ESTUFA


Que imaginação depravada têm as orquídeas! 
A sua contemplação escandaliza e fascina.
Vivem procurando e criando inéditos
coloridos, e estranhas formas, combinações
incríveis, como quem procura uma
volúpia nova, um sexo novo...

Mario Quintana ,

in Sapato Florido








CANÇÃO A VIDA



A vida é louca
a vida é uma sarabanda
é um corrupio...
A vida múltipla dá-se as mãos como um bando
de raparigas em flor
e está cantando
em torno a ti:
Como eu sou bela
amor!
Entra em mim, como em uma tela
de Renoir
enquanto é primavera,
enquanto o mundo
não poluir
o azul do ar!
Não vás ficar
não vás ficar
aí...
como um salso chorando
na beira do rio...
(Como a vida é bela! como a vida é louca!)

Mario Quintana
de Esconderijos do Tempo

terça-feira, 15 de outubro de 2013

A NOSSA CANÇÃO DE RODA




A nossa canção de roda
tinha nada e tinha tudo
como a voz dos passarinhos-
mas que será que dizia?
A nossa canção de roda
era boba como a lua.
Mas a roda dispersou-se
cada qual perdeu seu par...
Agora,nossos fantasmas meninos
talvez a cantem na lua...
talvez que junto a algum leito
a morte a esteja a cantar
como quem nana um filhinho...
A nossa canção de roda
tinha nada e tinha tudo:era
uma girândola de vozes
chispando
mais lindas do que as estrelas
era uma fogueira acesa
para enganar o medo, o grande medo
que a Noite sentia da sua própria escuridão.

Mario Quintana
in "Baú de Espantos" 

sábado, 12 de outubro de 2013

DA MESMA IDADE



Criança que brinca e o poeta que faz uns poemas
Estão ambos na mesma idade mágica!


Mario Quintana,
in Velório sem defunto




quarta-feira, 9 de outubro de 2013

CANÇÃO DA GAROA



Em cima do meu telhado
Pirulin lulin lulin,
Um anjo, todo molhado,
Soluça no meu flautim.

O relógio vai bater:
As molas rangem sem fim.
O retrato na parede
Fica olhando para mim.

E chove sem saber por quê...
E tudo foi sempre assim!
Parece que vou sofrer:
Pirulin lulin lulin...

Mario Quintana
In Nariz de Vidro

A Canção que Não Foi Escrita



Alguém sorriu como Nossa Senhora à alma triste do Poeta.
Ele voltou para casa
E quis louvar o bem que lhe fizeram.

Adormeceu. . .

E toda a noite brilhou no sono dele uma pobre estrelinha perdida,
Trêmula
Como uma luz contra o vento. . .


Mário Quintana
In: Canções

ÁLAMOS



Não, não é uma série de pontos de exclamação
-é uma avenida de álamos...
E o quê, e para quem, clamariam então?!
Deserta está a cidade.
Todas as avenidas, todas as ruas, todas as estradas, atônitas
se perguntam se vêm ou se vão...
Em nada lhes poderiam servir esses postes de quilometragem:
estão apenas desenhados, como um mapa.
Ah, se houvesse uns passos, ainda que fossem solitários...
Se houvesse alguém andando sozinho... e bastava! São os passos

-são os passos que fazem os caminhos.
Deserta está a cidade.
Se houvesse alguém andando sozinho
-para ele se acenderiam então, como um olhar, todas as cores!

Porque a cidade está cega, também.
O que não é visto por ninguém
não se sabe a cor e o aspecto que tem.
A cidade está cega e parada com a descor de um morto.
Porque tudo aquilo que jamais é visto
-não existe...



Mário Quintana
In: Esconderijos do Tempo

terça-feira, 8 de outubro de 2013

As Belas, As Perfeitas Máscaras



As belas, as perfeitas máscaras de perfil severo
Que a morte, no silêncio, esculpe,
Encheram-se de uma estranha claridade...
Que anjos tocam, através do mundo e das estrelas,
Através dos sensíveis rumores,
O canto grave dos violoncelos profundos?
Alma perdida, vagabunda, Messalina sonâmbula,
insaciada...

Que procuras na noite morta, Alma transviada,
Com tuas mãos vazias e tristes?
Cantam os violoncelos... A noite sobe como um
balão...

Meus olhos vão ficando cada vez mais lúcidos...
Soluçam os violoncelos... Ah,
Como é gelado o teu lábio,
Pura estrela da manhã!


Mario Quintana;
in O  Aprendiz de Feiticeiro

IX Da Inquieta Esperança



Bem sabes Tu, Senhor, que o bem melhor é aquele
Que não passa, talvez, de um desejo ilusório.
Nunca me dês o Céu. . . quero é sonhar com ele
Na inquietação feliz do Purgatório. . .


Mário Quintana
In: Espelho Mágico

VIII Dos Mundos




Deus criou este mundo. O homem, todavia,
Entrou a desconfiar, cogitabundo. . .
Decerto não gostou lá muito do que via. . .
E foi logo inventando o outro mundo.


Mário Quintana
In: Espelho Mágico


VII Da Voluptuosidade



Tudo, mesmo a velhice, mesmo a doença,
Tudo comporta o seu prazer. . .
E até o pobre moribundo pensa
Na maneira mais suave de morrer. . .


Mário Quintana
In: Espelho Mágico

segunda-feira, 7 de outubro de 2013

IV Da Preocupação de Escrever




Escrever. . . Mas por quê? por vaidade, está visto. . .
Pura vaidade, escrever!
Pegar da pena. . . Olhai que graça terá isto,
Se já se sabe tudo o que se vai dizer!. . .


Mário Quintana
In: Espelho Mágico




VI Do Cuidado da Forma



Teu verso, barro vil,
No teu casto retiro, amolga, enrija, pule. . .
Vê depois como brilha, entre os mais, o imbecil,
Arredondado e liso como um bule! 


Mário Quintana
In: Espelho Mágico

O POETA CANTA A SI MESMO



O poeta canta a si mesmo
porque nele é que os olhos das amadas
têm esse brilho a um tempo inocente e perverso...

O poeta canta a si mesmo
porque num seu único verso
pende - lúcida, amarga -
uma gota fugida a esse mar incessante do tempo...

Porque o seu coração é uma porta batendo
a todos os ventos do universo.

Porque além de si mesmo ele não sabe nada
ou que Deus por nascer está tentando agora ansiosamente respirar
neste seu pobre ritmo disperso!

O poeta canta a si mesmo
porque de si mesmo é diverso.


Mario Quintana,
in Esconderijos do Tempo









domingo, 6 de outubro de 2013

Eu acho que todos deveriam fazer versos ...



(...)
" Eu acho que todos deveriam fazer versos .
Ainda que saiam maus .
É preferível , para a alma humana ,
fazer maus versos a não fazer nenhum .
O exercício da arte poética é sempre um esforço
de autossuperação e , assim , o refinamento do
estilo acaba trazendo a melhoria da alma.
E , mesmo para os simples leitores de poemas ,
que são todos eles uns poetas inéditos ,
a poesia é a única novidade possível .
Pois tudo já está nas enciclopédias ,
que só repetem estupidamente , como robôs ,
o que lhes foi incutido .Ou embutido .
Ah , mas um poema , um poema , é outra coisa ..."

Mario Quintana ,
in " A Vaca e o Hipogrifo "
 

sábado, 5 de outubro de 2013

Reticências




As reticências são os três primeiros passos do pensamento 
que continua por conta própria o seu caminho.

Mario Quintana,
in Caderno H







sexta-feira, 4 de outubro de 2013

“LIBERTAÇÃO”



...Até que um dia, por astúcia ou acaso, depois
De quase todos os enganos, ele descobriu a por-
ta do labirinto.
...nada de ir tateando os muros como um cego.
Nada de muros.
Seus passos tinham – enfim! – a liberdade de
Traçar seus próprios labirintos.


Mario Quintana
In “A vaca e o hipogrifo”

quinta-feira, 3 de outubro de 2013

ERA UMA RUA TÃO ANTIGA...


Para Telmo Vergara

Era uma rua tão antiga, tão distante
que ainda tinha crepúsculos, a desgraçada...
Acheguei-me a ela com este velho coração palpitante
de quem tornasse a ver uma primeira namorada

em todo o seu feitiço do primeiro instante.
E a noite, sobre a rua, era toda estrelada...
Havia, aqui e ali, cadeiras na calçada...
E o quanto me lembrei, então, de um amigo constante,

dos que, na pressa de hoje, nem se usam mais
como essas velhas ruas que parecem irreais
e a gente, ao vê-las, diz: “Meu Deus, mas isto é um sonho!”

Sonhos nossos? Não tanto, ao que suponho...
São os mortos, os nossos pobres mortos que, saudosamente,
estão sonhando o mundo para a gente!

Mario Quintana
De: Apontamentos de História Sobrenatural

quarta-feira, 2 de outubro de 2013

FANTÁSTICA



Ampla se estende a erma planície nua.
Cobre-a o funéreo manto do luar
E cada sombra no chão se recorta
Com nitidez de paisagem lunar.

Mas que imobilidade singular
Que as coisas têm! E que nudez! Aflito,
O ouvido indaga, espera... E nem um grito
Vem o imóvel silêncio apunhalar.

Mostra-se a Lua. A sua enorme face
lembra um disco de prata formidando
que um Titã aos Céus arremessasse;

Vem branca, branca, de um palor que pasma.
E enquanto vai a Lua transmontando
uiva lugubremente um cão fantasma.


 MARIO QUINTANA
In A cor do invisível, 1989


OS RIOS



Há na vida tanta coisa,
Tanta coisa e um só olhar!
Toda tristeza dos rios
É não poderem parar...

Mario Quintana,
in A cor do invisível 

terça-feira, 1 de outubro de 2013

QUANDO EU MORRER



Quando eu morrer e no frescor da lua
Da casa nova me quedar a sós,
Deixai-me em paz na minha quieta rua...
Nada mais quero com nenhum de vós!


Quero é ficar com alguns poemas tortos
Que andei tentando endireitar em vão...
Que linda a Eternidade, amigos mortos,
Para as torturas lentas da expressão!...


Eu levarei comigo as madrugadas,
Por-de-sóis, algum luar, asas em bando,
Mais o rir das primeiras namoradas.


E um dia a morte há de fitar com espanto
Os fios da vida que eu urdi, cantando,
Na orla negra de seu negro manto.


Mario Quintana
In: A Rua dos Cataventos