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terça-feira, 8 de abril de 2014

O CIRCO O MENINO A VIDA



A moça do arame 
Equilibrando a sombrinha 
Era de uma beleza instantânea e fulgurante! 
A moça do arame ia deslizando e despindo-se. 
Lentamente. 
Só para judiar. 
E eu com os olhos cada vez mais arregalados 
Até parecerem dois pires:
Meu tio dizia:
“bobo!” 
Não sabes 
Que elas sempre trazem uma roupa de malha por baixo? 
(Naqueles voluptuosos tempos não havia nem maiôs nem biquínis...) 
Sim! Mas toda a deliciante angústia dos meus olhos virgens
Segredava-me 
Sempre: 
“Quem sabe?”
Eu tinha oito anos e sabia esperar.
Agora não sei esperar mais nada 
Desta nem da outra vida.
No entanto
O menino 
(que não sei como insiste em não morrer em mim) 
ainda e sempre 
apesar de tudo 
apesar de todas as desesperanças,
o menino 
às vezes segreda-me baixinho 
“Titio, que sabe?...”
Ah, meu Deus, essas crianças!

Mario Quintana,
 in Nariz de Vidro - 1984

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